Há muito tempo que desejo um espaço para escrever pensamentos e impressões. Eu sempre tive toda a internet à minha disposição. O que me oprimia (e ainda oprime) é a falta de vontade. Eu não sei se isso é uma consequência da minha terrível doença no coração, mas me falta vontade, garra; disciplina para fazer acontecer. Estamos em Agosto, porém estou desde o dia primeiro do primeiro mês querendo escrever estas palavras. Usarei, então, esta ferramenta como forma de autoajuda, como um amigo para todas as horas. Isto, no futuro, pode vir a ser útil.

Não serei um companheiro frequente, caro diário, pois não sou frequente nem para com as minhas obrigações corriqueiras. Eu tenho tanto a dizer, acumulei tanto nestes últimos tempos...

Direi então somente o que vier em mente neste momento atual. Outrora, caso lembre, escrevo o que tanto me assola.

Não tenho perspectiva.

Minha mãe fizera o máximo por mim. Sempre tive tudo para um garoto de meu tempo: bens materiais, alimentação, felicidade... Mas algo do passado sempre volta para me assolar. Apesar de ter tido uma ótima infância, certas coisas foram tão desagradáveis que sinto, inclusive, um certo peso para digitar aqui. Mas preciso deixar tudo bem esclarecido. Prossigamos.

Tive uma tendência alta para o homossexualismo, quando criança. Inclusive fiz coisas ruins, como abusar de um garoto menor do que eu. Eu era tão jovem quanto ele, mas isso não deixa de ser um fardo em minha alma. Eu tinha, no máximo, 11. Ele, entre 6 e 9. O quão traumático foi aquele episódio para a vida deste menino? Como será que ele está hoje? Eu nunca saberei.
O karma, como um juiz impecável das atitudes tomadas em vida, me fez pagar o preço: Fui abusado tempo depois. O trauma é grande, você só entende quando passa. Fui forçado a fazer coisas, fiquei assustado e depois chorei. Isso me assola, estas duas coisas me assolam como grandes fantasmas do passado.

Ainda fui condecorado pela vida, alguns anos depois, com uma medalha simbólica que vale por três: Miocardiopatia hipertrófica e sopro com tendência à arritmia. Morrerei antes dos 50 e estas doenças serão as culpadas, de qualquer forma. Fora assim com meus tios paternos.
Não podia mais fazer nenhum esporte - ainda não posso-. O que mais eu faria em minha vida? O que mais um adolescente que passava o dia jogando futebol poderia fazer? Fui descontar minhas frustrações nos livros. E comecei com Dumas. Clássicos.
Porém, nada afagava a minha dor e ódio pelo destino. Nada afaga.

Não tenho perspectiva.

Oras, apesar das pedras em meu caminho, sempre tive tudo. Quantas vezes minha mãe chorou, o quanto ela não batalhou para que eu possuísse tudo! Ela pensou no meu futuro, ela queria me dar uma vida boa! Para retribuir algo como isto, nada melhor do que orgulha-la da forma mais magnânima possível. E eu tento. Eu faço forças para estudar, para ser alguém bem de vida, um übermensch. Alguém que retribuirá tudo, TUDO. Mas sou sempre assolado pelos fantasmas do meu passado. Serei, no máximo, uma pessoa medíocre. Agora não falo apenas de bem-estar econômico. Eu quero nada mais nada menos que o clube de Bildeberg, eu quero o meu nome no topo do mundo, quero mostrar para ela que cada esforço não foi em vão. Não só por ela, mas por todos aqueles que me menosprezaram desde a infância, por todos aqueles que machucaram de alguma forma a minha família. Eu faço isso pela minha família e por mim. Para os meus, TUDO. Mas não consigo me mover. A batalha é duradoura, eu sou cardíaco. Eu quero ser o melhor de todos, mas minha família sabe que sou fraco, que serei apenas mais um. Vejo no olhar de todos que eu os desapontei. Serei apenas mais um, com muito ou pouco dinheiro. E já depositam as esperanças em outro, afinal, só isso que lhes resta. Eu preciso ser um bom chefe de família para quando todos os velhos morrerem, pois sou eu o primogênito. Eu preciso ser grande para a minha família, mas eu não tenho perspectiva. Fantasmas do passado...
Assuntos pendentes.