Lembro-me dos meus tempos de criança, tempo qual era normal gastar horas e horas assistindo animações que tematizavam o fantástico e o sonho. Olhando agora, com tantos anos de distância do Pedro Martins puro daquela época, percebo hoje que, das relíquias humanas, a mais valiosa é o amor. Este é o maior bem de toda a humanidade. Os desenhos e filmes que eu consumia elaboravam durante seu decurso uma lição de moral fundamental sobre amizade, ou sobre a importância da família e da ética. Talvez, sem essas animações, eu não seria o que sou hoje. Porém, dentre as mensagens elaboradas, haviam aquelas sobre o desconhecido amor, e estas eu não poderia entender integralmente com pouquíssima idade. Por tal incompetência, anos depois, maldisse o amor muitas vezes. Pois bem; tive duas namoradas, entre os dezesseis e vinte anos de idade, e finalmente pude compreender um pouco, durante as carícias e o poder das palavras, a faísca da capacidade de Eros. Era agradabilíssimo, no entanto achei que aquilo era a capacidade máxima do que chamamos de amor. O jovem! Ah! Ele acredita conhecer os limites do mundo, e que tudo pode ser concluído com a simplicidade da neblinosa convicção!

Foi então que Ella surgiu em minha vida, aos vinte e três, em tempos obscuros para a minha alma, e apesar de ter sentido com ela a faísca da capacidade de Eros, também senti algo que não sei nem teorizar, mas sei que ali havia o tato de Deus. Existem coisas que não são explicáveis; como entender aquele momento? Havíamos chegado da casa da minha tia, e já era madrugada de segunda-feira. Ela estava um pouco enjoada da viagem de carro, talvez por conta da estrada rusticamente esburacada, e então sentou-se um pouco na cama a sarar da vertigem. Em seguida ela estava com fome, mas precisávamos comer algo leve para enfim dormirmos, já que acordaríamos antes das sete, que eu a levaria à faculdade. Na cozinha, Ella sentou-se na pequena cadeira colorida e estofada e ficou esperando que eu sugerisse algo para comermos, tão logo eu disse: "que tal... uma maçã?". Lavei uma pequena maçã-gala e entreguei-lhe. Ela abriu um pequeno espaço na cadeira para que eu me sentasse com ela, e quando sentei-me ella colocou os pés sobre minhas coxas e comeu a maçã silenciosamente enquanto eu a admirava. Por vezes ela erguia a maçã rente à minha boca para que eu mordesse também, em um pequeno gesto de humildade, zelo, beleza.

Naquele instante entendi o que era o poder antes desconhecido dos contos de fadas. A mágica, o suspiro. Vi que dentro do amor existe um brilho quase infinito que pode ser explorado pelos cavalheiros corajosos que embarcam nesse navio sem volta. Não tem volta no amar! E se fiquei com medo de toda a potência desconhecida, também criei coragem para enfrentar os maiores desafios metafísicos. Que a realidade rasgue-se e que se revele uma maldade enorme que nos guia e nos afeta eternamente. Enquanto eu possuir as memórias de amor estarei eternamente a salvo da desesperança. Já não importa mais a maldade, um singelo segundo de amor pode cobrir-me com toda a esperança necessária. Acredito que essa seja a lição máxima desta relíquia humana, esta que se permitiu ser vista por um pecador como eu, que se permitiu ser vista através da face da Pâmella. Um singelo momento como aquele... Agora entendo a importância e o poder do amor. Agora entendo os contos de fada. Ella me ensinou a amar, e que nossa perfeita sintonia se torne também pureza espiritual. Com ela, sinto-me suficiente.