Eu não deveria fazer isto aqui. Mas que tudo fique às claras:

Só uma coisa que me irrita. Não, muitas coisas me irritam e me irritaram. Mas apenas isto me tira do sério e me faz ter um desgosto profundo de tudo. Eu tenho vontade de literalmente me matar quando você mente de forma inconsciente para mim. A impotência que me gera é quase que insuportável; humilhante.
Sua mentira é inconsciente porque eu sei que você não faz isso por querer. Muitas vezes você me diz que não olha para homens no meio da rua e sim para as pessoas que passam; sei que essa informação é falsa. Não sei se isso é herança da sua época de jovenzinha influenciável, mas quando fazes isso me tornas o cara mais miserável e impotente da face terrestre. Ver que você está olhando o pacote alheio no meio da rua enquanto eu estou segurando sua mão me causa ojeriza. Há também aquelas vezes que pergunto se você olha ou não a bunda alheia no meio da rua e você diz que não o faz. Dias depois passa um homem de skate e em poucos segundos você vem me beijar, segura minha cabeça e diz que sou "lindo". Você fez isso por remorso do teu cérebro de ter visto o cara e achado ele bonito. Depois, como se fosse para compensar a impotência que me causou, vem me beijar e dizer que eu sou lindo, elucidando em mim todo esse pensamento que eu transcrevo agora. Há muito tempo perguntei se você achava o Maury, seu professor, um cara bonito. Foi uma pergunta simples, não iria ficar me martirizando por conta disso. Você negou veemente. Hoje, você quase gritou de tanta felicidade após o Yuki confirmar o seu professor. Não seria nada anormal se você não tivesse perguntado logo após se eu estava com ciúmes. Esta pergunta totalmente alheia foi como um raio na minha cabeça. Você não perguntaria se eu estou com ciúmes sem um fundamento lógico para eu ter realmente ciúmes, o que confirma que você realmente acha ele atraente e não me contou quando perguntei, o que é mais um indício das prováveis outras mentiras que você esconde de mim. Podem ser coisas infantis e ridículas para o adolescente padrão. Essas coisas realmente abalam a minha cabeça que já é fodida, ainda mais por lembrar da garota que você já foi - e ainda é, pois pessoas não mudam - .

Hoje, com o Eric, quando você disse na maior indiferença que não sente ciúmes algum de mim, me bateu um pensamento que isso se deve ao fato de você não sentir mais algo por mim, em vista que não preza mais pelo seu objeto de desejo. É como se fosse um brinquedo novo que as outras crianças não têm: você tem ciúmes que peguem nele e que possam quebrá-lo. Mas logo depois o brinquedo enjoa, você arranja um novo pra brincar e quer mais é se livrar do antigo. Eu até tento ser que nem você nesse quesito, tem quase uma semana que tento ao máximo tirar meu ciúmes e fingir que não me importo. Mas por prezar demais tudo isso, não consigo. Eu fico analisando todo e qualquer movimento seu e, como um crítico literário, penso em quantos sentidos ocultos aquele movimento ou aquela fala deve ter tido. Me desgasto facilmente com isso.
Eu até tento, na melhor das intenções possíveis fazer com que você volte a ter aquele fogo do início por mim. Trocávamos carícias em qualquer lugar. Hoje você não estava me dando muitas chances e recusou mais de 70% dos meus toques e investidas quando estávamos sozinhos. Depois de dormir e de ver a Tati que você, enfim, começou a sentir um pouco mais de prazer em estar comigo.
Não existe um aparelho para medir tal coisa, então não sei o quão desgastada está a nossa relação., qual a porcentagem de cansaço que você está de tanto olhar na minha cara horripilante, coisa et al. Dá pra ver que, no inconsciente, você já procura outra coisa além do feijão com arroz que eu só posso te proporcionar, todos os dias.

E mesmo com toda a minha falha conatural eu tinha uma vaga noção de como seria o semestre. E agora eu não tenho nada, por mais que eu goste de você e fique imaginando em como vai ser daqui 20 ou 30 anos, eu não consigo imaginar que duremos até o final do semestre. Eu tenho a minha forma de carinho e isso pode desgastar ambos durante o semestre inteiro. Agora você vai ter que dividir tempo com suas matérias, seus amigos e família. E enquanto isso vais continuar usufruindo da sua natureza e continuará olhando caras na rua e seja lá aonde for, até que um dia você não vai sentir nada além de ojeriza por minha pessoa. E aí vai me trocar por alguém melhor, à praxe da plena condição dos selvagens que somos.

Nada errado em olhar outra pessoa, pois. Já se foi toda a sensibilidade que eu tinha pelo assunto depois disso tudo.
Acontece que, infelizmente, eu nunca irei conseguir lidar com o fato de que você se sente atraída por outras pessoas. É uma contradição que afronta até a minha própria biologia. Não posso fazer nada a não ser me lamentar e segurar toda essa desgraça dentro de mim.
Eu não sei o que fazer, porque eu te amo.


PS: Hoje, em 2020, lendo esse pensamento do alto dos meus 24 anos, percebo o quão ridículo eu fui, mas não tenho coragem de apagar essa nota. Manuscritos não queimam.